Educação para surdos no Brasil ainda enfrenta desafios
- Kauã de Freitas
- há 12 minutos
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Número de escolas abaixo do recomendado não é a única dificuldade. Deficientes auditivos enfrentam a falta de informação e preconceito ao longo da vida.
Por: Juliana Brumana

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem cerca de 10 milhões de pessoas com algum grau de deficiência auditiva e 2,3 milhões de pessoas surdas. Uma das políticas públicas e ações governamentais que busca atender as demandas deste público que equivale a 5% da população foi é instituição da lei que regulamenta educação bilíngue de surdos no país. Proposta pelo senador paranaense Flávio Arns em 2020, e sancionada em 2021, a lei 14.191/2021, a lei altera a estrutura da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), e estabelece que a Língua Brasileira de Sinais (Libras) deve ser ensinada em escolas bilíngues distribuídas por todo o território nacional. Nessas instituições, pessoas surdas recebem o ensino da Libras como primeira língua e o português escrito como segunda.
Apesar desse avanço, a quantidade de escolas bilíngues ainda é insuficiente. Em 2020, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) apontou a existência de apenas 64 escolas bilíngues em todo o país, um número muito abaixo do necessário para atender à demanda de crianças surdas.
O servidor público Thiago Batista, que atua como professor e guia-intérprete de Libras para crianças e adultos, aponta que a exigência do aprendizado da língua apenas por profissionais dos cursos de formação de professores é um dos motivos que dificultam o avanço do ensino de Libras no país. “Lembro de uma mãe que pediu para não ensinar Libras à filha surda porque, segundo o médico, isso a impediria de falar. Após uma conversa com a mãe e, pedir uma oportunidade para que ela pudesse aprender Libras, a filha começou a evoluir em seu aprendizado”, conta o professor
Quantidade de alunos surdos reduz ao longo dos anos escolares
As crianças que recebem o ensino de Libras nas escolas são minoria, é o que revela a última edição da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE. De acordo com o levantamento, a maioria dos jovens com deficiência auditiva não conclui os estudos, e poucos conseguem chegar ao nível superior. Já na fase adulta, grande parte dessas pessoas recebe entre meio e um salário mínimo, evidenciando a dificuldade de inclusão no mercado de trabalho.
O aluno do curso de Licenciatura em Letras e Libras, Paulo Nascimento de Alcantara, que também é surdo, é uma exceção dentro dessa estatística. O rapaz, de 35 anos, nasceu surdo e aprendeu a Língua Brasileira de Sinais ainda na infância com seus pais, que também são surdos. Ele conta que estudou em uma escola particular especializada para surdos durante o Ensino Fundamental.
“Minha mãe me obrigava a estudar. Ela me matriculou em cursos de inglês e informática até falecer. Vi muitos amigos desistindo dos estudos. É uma pena que tantos percam suas vidas. A maioria é tratada como doentes mentais, são maltratados e, quando conseguem chegar ao mercado de trabalho, ainda enfrentam o preconceito”, lamenta.

Centro de referência nacional para surdez está localizado no Rio de Janeiro
Com atuação há mais de 100 anos, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) oferece ensino às pessoas surdas desde a Educação Infantil até o Ensino superior, também promove congressos, seminários e encontros acadêmicos sobre o tema, além de pesquisa e assessoria em todo o território nacional, conforme informações disponíveis no portal Gov.br.
A neuropsicopedagoga Tatiana Tesch, que atuou por longos anos como coordenadora pedagógica, ressalta a importância do ensino de Libras para todas as crianças. Segundo ela, não se trata apenas de aprender sinais, mas uma oportunidade para exercitar a atenção, a memória e a flexibilidade mental.
“A criança que aprende Libras se torna uma agente de transformação, alguém que entende que a comunicação é um direito, não um privilégio”, destaca.
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